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A TV do salão estava ligada e a propaganda anunciava a coletânea de músicas da última novela das 9. Elisa não prestaria atenção normalmente, mas a primeira música anunciada – aquela que embalava o casalzinho – era Pássaro de fogo, uma música de Alex. A melodia tocava toda vez que o casal ficava junto ou se separava, quando um pensava no outro e às vezes no encerramento da novela. A música era onipresente, assim como Alex. Ela já não iria conseguir esquecer tão facilmente, agora com aquela música tocando em todo lugar é que ela não teria paz.

 

Pássaro de fogo

Se deixar eu me afogo

Nas mentiras do teu jogo

 

– Eu amo essa música! – uma das frequentadoras do salão comentou, entusiasmada.

 

Pássaro de fogo

Há estrelas em seus olhos

E promessas que eu não ouço

 

Metade do salão improvisou um coral, repetindo os versos conhecidos até mesmo depois da propaganda ter terminado. Elisa quis gritar pra que todas elas calassem a boca. Vasculhou o revisteiro e achou uma revista de fofocas de duas semanas atrás e decidiu que se distrairia com aquilo. Meia dúzia de páginas folheadas depois, deu de cara com Alex novamente. A matéria estampava o flagra do músico saindo da casa de um provável amante nas primeiras horas da manhã.

 

“Música de madrugada

 

Alex D. foi visto nessa manhã deixando a casa que pertence ao notável dono de casas noturnas Fernando L.. Ainda não sabemos se estava ensaiando uma música nova ou se praticava qualquer outra atividade.”

 

A matéria era típica de revistas baratas e sensacionalistas, e contava com uma foto granulada tirada de longe. Sim, ainda era possível identificar a figura longilínea de Alex. Elisa arrancou a página da foto e guardou na bolsa, sem pensar muito no que estava fazendo.

 

– Eu te entendo, eu também adoro ele. – uma moça a seu lado a viu rasgando a revista e interpretou aquilo como sendo pura admiração de fã.

– Ele é incrível, né? – Elisa se forçou a dizer.

– Demais, pena que ele é gay.

 

Outras moças se intrometeram na conversa ao se darem conta do assunto.

 

– Jura? Não tem quem diga. – comentou uma que estava com pés e mãos dentro de uma bacia.

– Sério, ele está sempre andando com esse cara. Esse aí da revista. – respondeu a primeira moça.

– Não acho não. Eu li que ele tava saindo com aquela atriz da novela das nove.

– Qual, a mocinha?

– Essa.

– Nossa, eu se pudesse faria de tudo com ele. – comentou a manicure.

– Eu também… A voz dele nossa, me deixa toda arrepiada! – concordou uma moça cheia de papel alumínio na cabeça.

– Ele é incrível. – repetiu Elisa no automático.
Ela deixou a conversa morrer. Ter que aguardar sua vez estava ficando insuportável.

_____________________

 

O celular tocou quando estava chegando em casa. Ela fuçou a bolsa e localizou o aparelho no fundo.

 

– Alô?

– Elisa, minha linda! Não vai vir aqui pra chácara esse fim de semana?

– Oi Vi, tudo bem? Acho que não dá, prometi que ia ajudar a Muriel faxinar o apartamento.

– Hmm. Você sabe que pode morar comigo no apartamento né? É mais perto da faculdade e você não pagaria aluguel.

– Eu sei Vi, e eu te agradeço muito! Mas até me formar prometi que ficaria com a Mu. Obrigada mesmo.

– Sem problemas, se precisar sabe que a casa é sua.

– Claro Vi. Beijo!

– Beijo!

 

Elisa guardou o celular na bolsa e encarou Muriel, que estava encostada em uma parede olhando fixamente pra ela.

 

– Muito bonito a senhora me usando de desculpa de novo! – Muriel riu e Elisa ficou sem graça. – Olha, se quiser fugir por enquanto tudo bem, mas vai precisar encarar sua família mais cedo ou mais tarde.

– Obrigada Mu, to te devendo essa. – Elisa abaixou a cabeça como quem fazia uma reverência.

– Você está me devendo várias. Aceito como pagamento que você me apresente a delícia do seu cunhado.

– Claro, qualquer dia eu te apresento. Acho que agora ele deve estar ocupado demais.

 

Muriel passou a mão pela cabeleira cacheada e jogou os cabelos pra trás.

 

– Eu não vou esquecer disso. E aí, planos para o sábado?

– Pedir pizza, assistir a novela…

– Mas essa novela é horrível! Aposto que você só assiste porque tem música do seu cunhado.

 

Elisa riu. Só podia ser por esse motivo mesmo.

– E teu noivo, cadê?

– Trabalhando… Ele fechou com três fazendas e vai passar o final de semana inteiro fora.

Muriel deu um assobio comprido.

– Pode me acompanhar se não tiver nada melhor pra fazer. – Elisa continuou.

– Lógico que eu tenho. Marquei de sair com aquele cara do segundo ano.

– Aquele do laboratório ou o bonitinho que tem os dentes separados?

– O do laboratório. O bonitinho eu saí na semana passada.

– Ah tá, desculpa aí!

 

Muriel riu e deu um tapa na bunda de Elisa. Ambas entraram juntas na faculdade de medicina e eram amigas desde o dia do trote. Além do apartamento, Elisa dividia quase todos os segredos com Muriel. Quase todos. Elisa apreciava o quanto Muriel era cheia de vida e o quanto ela respeitava seu espaço.

________________

Ela já estava acomodada no sofá acompanhada da caixa de pizza quando uma Muriel muito perfumada e maquiada desfilou em direção a porta.

 

– Como estou?

– Eu pegaria. – Elisa respondeu de boca cheia.

– Eu já sabia. – Muriel riu e abriu a porta. – Não me espera acordada! – Ela fechou a porta.

 

Elisa não se deu ao trabalho de responder, até mesmo porque não sabia se Muriel a ouviria. Voltou sua atenção para a novela, que parecia ter chegado a um ponto crítico. A mocinha pegou o mocinho no flagra com outra, numa dessas situações que só acontecem em novelas ou em música sertaneja. O mocinho tentava explicar que não era bem aquilo que estava acontecendo, mas a mocinha – uma mulher forte, batalhadora e decidida – não aceitava as explicações.

 

E então eles se separaram mais uma vez. Algo que até o final da novela ocorreria umas cinco ou seis vezes, dependendo da paciência do telespectador. Tentou imaginar o que ela seria capaz de fazer se pegasse Roberto com outra, mas só conseguiu pensar que a mulher teria de agarrá-lo à força. O pensamento a entristeceu.

 

Sua mente se enveredou por um caminho mais escuro e ela se pegou imaginando o que faria se visse Alex beijando outra pessoa. Não que já não tivesse visto ele fazendo coisa pior, mas na época era diferente. Era diferente. A música que vinha da televisão era Pássaro de fogo. Não sabia dizer quando ouviu a música pela primeira vez, mas mesmo depois de meses e mesmo depois de conhecer cada palavra e acorde, ela sentia a mesma coisa toda vez que ouvia.

 

Pássaro de fogo era uma música dolorida. Era um rompimento que não acabou bem para nenhuma das partes. Era uma promessa que nunca seria cumprida. Falava sobre um monte de coisas que deveriam ser ditas mas que nunca seriam. E de silêncio.

 

A TV anunciava agora o programa dominical, cuja atração era Alex. Elisa se viu grudada na TV. Então agora ela estava cogitando até assistir programa de auditório durante o domingo só pra ver Alex ao vivo. Puxou a TV da tomada e decidiu que era hora de acabar com aquilo. Ia arrumar alguma coisa para fazer. Resgatou o celular do sofá e mandou mensagem para Vivi.

 

“Vamos almoçar domingo?”

“VAMOS SIM! 🙂 🙂 :)”

 

Viviane não demorou nem um minuto para responder. Será que também estava assistindo a novela? Combinou de fazer compras e depois seguir para a chácara. Pelo menos Alex não estaria lá.

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