19

O celular vibrando a acordou. Ainda sem saber direito onde estava, atendeu.

 

– Elisa, o Alex está aí com você?

 

A voz preocupada de Vivi fez com que se lembrasse de tudo em tempo recorde. Ela estava em Porto de Galinhas num quarto de hotel esperando que Alex chegasse. Mas nunca ia imaginar que Vivi fosse ligar em seu celular procurando por Alex.

 

O celular foi tirado de sua mão por Alex.

 

– Oi mãe.

 

Não conseguiu ouvir o que Vivi estava dizendo, mas Alex parecia estar levando uma bronca.

 

– Sim. Eu sei. Eu sei, mãe.

 

Depois do que pareceram ser os minutos mais longos da vida dela, ele desligou e se dirigiu a varanda. Elisa não pode deixar de reparar no céu incrivelmente estrelado delineando a silhueta esguia de Alex. Ela nunca ia ser capaz de acender a luz naquele quarto, não quando podia ver aquele céu.

 

– O que ela disse?

– Oi pra você também, Elisa. – o tom dele era neutro. Não sabia dizer o que ele estava sentindo.

 

Ela se levantou da cama, se enrolando num dos lençóis e improvisando uma túnica. Viu ele tirar um maço de cigarros do bolso e acender um.

 

– Obrigada.

– Pelo quê?

– Por me fazer desaparecer.

– Mas você não está completamente desaparecida. Não pra sua sogra.

 

Ele estava de costas para ela, apoiado na grade da varanda. Ela se aproximou e colocou a mão no ombro dele.

 

– Basicamente minha mãe acha que eu corrompi você. – ele se virou e encarou Elisa.

– E o que você disse pra ela?

 

Ele deu um trago profundo e soltou a fumaça lentamente.

 

– Nada. Acho fofo que ela acredite que você é um anjo.

 

Elisa não pode deixar de gargalhar alto. Ela, um anjo! Então havia alguém que ainda tinha fé nela.

 

– Que merda, hein.

– Nem me fale. – ele colocou a mão no rosto dela. – Você é um anjo e eu sou um demônio.

– Obrigada por ter ficado quieto, de verdade. Mas não tem nenhum anjo aqui. Isso já foi longe demais.

– Deixa pra se preocupar semana que vem. Acho que nós temos muito o que fazer por aqui e eu não estou a fim de pensar nos outros.

 

Era tudo o que ela mais queria. Mas não podia ignorar o elefante no quarto ao lado. E se odiou por isso.

 

– Então, o Fernando.

 

Viu a expressão de Alex mudar. Já estava arrependida, mas já havia começado o assunto.

 

– O que tem ele?

– Vocês estão juntos?

 

Alex gargalhou, uma risada irônica.

 

– E você realmente acredita que pode me fazer essa pergunta?

– Não me precisa me dizer se não quiser.

 

Ela pegou o maço de Alex e acendeu um cigarro.

 

– Ele gosta de você e eu não quero ficar entre vocês dois.

 

Alex ficou sério como se tivesse recebido uma informação nova.

– Nós não…

 

A batida na porta interrompeu os dois. Alex foi até a porta e abriu.

 

– Tudo bem por aqui? – era Fernando. – Queria saber se nós vamos jantar aqui ou na vila.

– Vamos lá na Vila. Quero conhecer o lugar. – a expressão de Alex mudou e ele estava definitivamente feliz. – Vou só tomar banho.

– Você vem, né Elisa? – Fernando deu um sorriso tão lindo que ela não poderia recusar.

– Claro. Vou só me trocar.

– Maravilha! Vamos, Alex?

 

Alex saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Mais essa. Jantar a três e ela estaria segurando vela desta vez. Bem que ela merecia.

 

_____________

 

O restaurante era pequeno mas muito bem decorado e – para alegria de todos – tinha ar condicionado. Eles sentaram numa das poucas mesas e Elisa não deixou de reparar nas dezenas de quadrinhos decorando a parede de cor vinho. Ficou distraída olhando os detalhes e deu graças por isso. Eles pediram camarão e Elisa ia pedir água, mas mudou de ideia quando ouviu Fernando pedir uma caipirinha. Os três acabaram optando por pedir caipirinha.

 

– Ao cantor e compositor mais incrível e talentoso do Brasil! Saúde! – Fernando puxou o brinde e Elisa acenou com a cabeça, concordando.

– Viva o Roberto Carlos! – Alex gracejou. – Saúde!

 

A comida era incrível e Elisa até pediria outro prato se estivesse sozinha. Não que fosse necessário: a porção tinha um tamanho ótimo e servia uma pessoa muito bem. Experimentou o camarão de Alex e achou o prato dele ainda mais delicioso. Ainda pediu uma sobremesa de cocada e sorvete que estava celestial. Não se lembrava qual havia sido a última vez que havia comido tão bem.

 

E muitas caipirinhas depois, já era melhor amiga de Fernando. Não havia como não se impressionar com ele. Era bonito, incrivelmente divertido e tinha o par de olhos verdes mais impressionantes que Elisa já viu. Ela se pegou reparando nas tatuagens e nas veias dos braços dele. Fernando era caloroso e ela gargalhava ouvindo ele contar histórias de sua vida. Aparentemente ele morou no Brasil inteiro e já passou por todo tipo de situação bizarra.

 

Aos poucos, o restaurante ia se esvaziando. Já era mais de meia noite e só a mesa deles continuava ocupada.

 

– Bonito batom, Elisa. – Fernando comentou entre um causo e outro.

– Quer passar? Tenho ele aqui na bolsa…

– Na verdade, eu queria tirar.

 

Ela parou por um momento e tentou absorver o que ele havia acabado de dizer. Fernando estava passando uma cantada nela, era isso?

 

– Eu tiro pra você. – Alex puxou o rosto de Elisa e a beijou com intensidade.

 

Elisa foi surpreendida, mas não ia interromper o beijo. Não quando Alex fazia brotar toda a sede dentro dela de novo. Quando eles se separaram, Alex estava com a boca vermelha.

 

– Essa cor não ficou bem em você. – Fernando comentou.

– Tira pra mim então. – Alex desafiou.

 

Fernando beijou Alex, e Elisa observou hipnotizada. Fernando beijava com o corpo inteiro. Ela podia ver nele a mesma sede que Alex despertava nela. Estivesse sozinha com eles num quarto, talvez estivesse se tocando.

 

– Acho melhor a gente ir. – Fernando comentou depois de algum tempo, olhando Alex nos olhos.

 

Ele acenou para uma garçonete que observava a mesa deles à distância e Elisa pôde ver o quanto o rosto dela estava vermelho quando ela se aproximou. Fernando pagou a conta e deixou uma gorjeta generosa para a moça envergonhada, que sequer conseguiu agradecer.

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18

A sala de embarque estava lotada, porém silenciosa. Talvez pelo horário ou mais provavelmente pelo fato de não haver crianças por ali. Havia sim muitos adultos, que mexiam em celulares ou notebooks enquanto aguardavam o embarque. Ela também reparou em um grupo homogêneo que parecia estar a caminho de alguma convenção.

 

Alex estava em Salvador, mas quando ela recebeu os detalhes do vôo viu que o destino era Recife. A única informação que obteve foi a mensagem de Alex no celular dizendo “Te encontro lá”. O vôo estava marcado para duas da manhã. Três horas depois, ela aterrissou em Recife.

 

O dia já estava claro quando ela se dirigiu a saída do aeroporto. Quando ligou o celular, havia outra mensagem de Alex informando que alguém iria encontrá-la no aeroporto. Ela só não esperava que essa pessoa fosse Fernando. Ele sorriu ao reconhecê-la e a cumprimentou.

 

– Tudo bem, Elisa? Quer ajuda? – ele se ofereceu para pegar a mala de mão que ela levava.

– Joia, e você? Não precisa, pode deixar que eu levo.

 

Que beleza. Agora os dois estão viajando juntos?

 

– O Alex tem um compromisso hoje cedo em Salvador e depois ele vem encontrar a gente. – Fernando se explicou.

– Uhum.

– Vamos lá?

 

Eles foram até o estacionamento e pegaram o carro. Elisa não sabia o que estava esperando, mas achou que ele iria levá-la até um hotel em Recife mesmo. Quando o carro pegou a estrada e deixou a cidade para trás, ela se viu obrigada a perguntar.

 

– Para onde estamos indo?

– O Alex não falou nada?

– Não.

– Porto de Galinhas. – Fernando sorriu, aquele sorriso tão lindo que ela não conseguia esquecer.

 

Porto de Galinhas? O que será que Alex tinha pra fazer em Porto de Galinhas? E até onde Fernando sabia o que estava acontecendo entre os dois? O silêncio no carro era constrangedor. Foi Fernando quem tentou iniciar uma conversa.

 

– O Alex comentou que você precisava sumir por alguns dias.

– Uhum.

 

Elisa mordeu os lábios. Queria perguntar se eles estavam junto, isto é, além de profissionalmente. Para se distrair, mexeu no rádio do carro sintonizando em uma que estava tocando uma música genérica animada.

 

– O Alex vai gravar com ela hoje.

– Sério? Que legal.

– É, eles já estão conversando sobre essa parceria desde mês passado.

 

O silêncio tomou conta do carro novamente. Elisa não queria fingir interesse ou manter qualquer tipo de conversa com Fernando. Sabia que estava sendo mal-educada, mas já havia passado da fase de se preocupar com o que os outros pensariam dela.

 

O carro entrou por uma estrada menor que levou a uma rua arenosa. No final da rua, uma fachada branca de porta de vidro se impunha contra os coqueirais que cercavam a construção.

 

– Vamos? – Fernando estacionou e Elisa saiu do carro, mala e bolsa em mãos.

 

Ele informou ao recepcionista que tinha uma reserva para dois quartos, no que foi prontamente informado que os quartos estavam disponíveis. Pegou três cartões magnéticos e entregou um a Elisa.

 

– Você está no 402. Nós estamos no 401.

 

Nós? Como assim nós? Então Alex ia ficar no quarto com Fernando?

 

– Ok, obrigada. – Elisa se forçou a sorrir.

– Se quiser descansar agora, depois podemos nos encontrar para almoçar.

– Obrigada. – ela repetiu.

 

Se ela soubesse onde era o quarto, ia correndo para lá. Por sorte um mensageiro solícito se prontificou a pegar sua bagagem e acompanhá-la até o quarto. Ela aceitou prontamente e se virou para se despedir de Fernando, mas ele tinha ido até o carro com outro mensageiro para que ele o ajudasse com as malas.

 

O mensageiro abriu a porta e explicou as amenidades do quarto para ela. O lugar era enorme e o banheiro tinha um box grande o suficiente para que 5 pessoas tomassem banho ao mesmo tempo, além da banheira espaçosa.

 

– A água quente é a torneira da esquerda. – o mensageiro foi até o balcão e abriu as portas.

 

Elisa parou na frente da varanda que ele mostrava, mesmerizada pelo tom de azul do mar e pelo sol que brilhava forte.

 

– Os controles do ar e da TV estão em cima da mesa. Se precisar, há uma lista de números de telefone úteis sobre o criado mudo.

 

Ele poderia continuar falando para sempre que ela não prestaria atenção. Elisa não conseguia parar de olhar o mar. Há anos que ela não ia para a praia, mas mesmo os lugares que ela conheceu não se comparavam àquela visão. A extensão do azul parecia ser infinita, sem uma viva alma à vista.

 

Ela pegou dinheiro na bolsa e entregou ao mensageiro, agradecendo. E ele desapareceu em seguida.

 

Então ela ia dividir aquilo tudo com Alex pelos próximos dias. Com Alex e com Fernando, lembrou a si mesma. Olhou novamente para o mar e para o céu e jurou para si mesma que não se importaria de ter Fernando por ali.

 

_____________

 

Tomou um banho longo e sentou na cama para se secar e passar hidratante. A cama era imensa e os lençóis eram incrivelmente confortáveis. Como estava sem dormir, achou que seria uma boa ideia descansar um pouco antes de…

…antes de Alex chegar?

 

Ligou o ar condicionado e se acomodou sem roupa mesmo debaixo do edredom branco e macio. As responsabilidades podiam esperar até semana que vem.

17

– Posso entrar, Mu?

 

A porta se abriu mais rapidamente do que ela esperava.

 

– AHHHHHHHHHH! – Muriel deu um grito e puxou Elisa para dentro do quarto. – Vai me contar o que tá acontecendo? Ou vai me matar do coração trazendo aquele homem pra minha cozinha sem me dar nem um aviso tipo “Oi miga convidei meu cunhado que é uma super estrela e que por acaso eu também tô pegando pra vir aqui em casa”?

 

Elisa ficou vermelha. Era isso, finalmente estava exposta.

 

– E não adianta fazer essa cara porque eu escutei vocês noite passada. É sério que ele transa tão bem quanto canta?

– Melhor.

– Oi?????? Você já não tinha um noivo lindo e perfeito? O que você tá fazendo, sua louca?

– Eu não sei, honestamente. – Elisa sentou na cama de Muriel, desolada.

 

Muriel sentou ao lado da amiga.

 

– Faz quanto tempo que isso tá acontecendo?

– Uns seis meses. Foi naquele feriado prolongado.

– Seis meses? E você não explodiu de ficar guardando esse segredo por seis meses?

 

Elisa deu um riso triste.

 

– Olha, eu não estou te julgando tá?

– Eu sei, Mu. Eu sou muito grata por isso.

 

Muriel deu um cutucão em Elisa.

 

– E você não devia estar triste, mulher! Tá aí pegando dois homens lindos e tá com essa cara de velório.

– Verdade… – Elisa riu. Que pessoa horrível ela era.

– Mas a pergunta que não quer calar é… Quem é o melhor dos dois?

 

Elisa deu uma gargalhada.

 

– Não acredito que estou falando disso.

– Desembucha! – Muriel deu outro cutucão em Elisa.

– É diferente. O Rô é de um jeito. O Alex é totalmente diferente.

– Não foi isso que eu perguntei…

– O Alex, ok? Pronto, falei. Chega.

– EU QUERO DETALHES! Me dê ibagens! – Muriel sacudia Elisa como se a informação fosse cair dela como uma fruta madura cai do pé.

 

Elisa caiu deitada na cama de Muriel.

 

– O Alex é… – pensou duas vezes em como diria aquilo em voz alta. – Ele é aquela pessoa que faz você esquecer quem você é. É pior do que droga, sabe? Ele me deixa num estado de euforia que eu esqueço quem eu sou. Eu só quero ele. E eu durmo tão bem depois… – ela fechou os olhos.

– Puta que pariu nós duas miga. Que inveja.

– Não fique com inveja não. – Elisa sentou na cama novamente. – Em resumo, eu tô na merda.

– Ficar com os dois não é opção? – a pergunta foi mais honesta do que Elisa esperava.

– Não, claro que não. Eu não sei até que ponto eles gostam de mim. Sei lá, o Rô eu sei que gosta de mim. O Alex eu não sei.

– Não entendi.

– Eles sempre competiram pra ver quem era o melhor. Eles são irmãos e se amam e tal, mas no fundo sempre rolou competição dos dois lados.

– Que bosta.

– É. Às vezes eu acho que estou no meio dessa competição.

– E eu queria ter esses seus problemas gravíssimos. – Muriel gargalhou e o clima ficou mais leve.

– Obrigada, Mu.

– Eu já nem estou contando quantas você tá me devendo, miga.

 

_____________

 

Não é porque ela perdeu as aulas da manhã que deixaria de lado as aulas da tarde. Hora de ser alguém responsável. Já havia escurecido quando ela voltou para o apartamento vazio. Abriu a geladeira e pegou a garrafa d’água enquanto ponderava se ainda era aceitável comer a pizza de sábado ou se devia pedir alguma coisa pelo telefone. Ligou a TV da sala num programa de fofocas apenas para efeito de ruído de fundo.

 

Decidiu requentar o que sobrou da pizza. Estava focada no microondas quando escutou  algo vindo da TV que chamou sua atenção.

 

– Alex já tem um novo amor? Veja as fotos!

 

“Fotos? Como assim fotos?”

 

Ela foi até a sala a tempo de ver a imagem na TV. Era uma sequência de três fotos: na primeira, Alex aparecia nitidamente triste enquanto uma mulher segurava seu rosto. A seguir, os dois se beijavam. Então a expressão de Alex era completamente diferente na terceira foto.

 

– PUTA. QUE. PARIU. – Elisa gritou

 

Aparentemente aquela era só uma chamada, pois o apresentador prometeu mais detalhes após os comerciais. Aqueles seriam os três minutos mais longo de sua vida. Elisa correu atrás do celular e verificou o twitter. A sequência de fotos estava em todo o lugar. Um dos twits já havia sido compartilhado algumas milhares de vezes. Não conseguiu achar mais nada a não ser aquelas fotos. Ela só aparecia de costas, mas aquela era a entrada do seu prédio.

 

Além da própria foto, havia uma foto da mocinha da novela das 9 – a suposta namorada de Alex até então – saindo de casa desolada, de óculos escuros.

 

O programa voltou do intervalo comentando sobre a mocinha da atual novela das nove e como ela estava de coração partido. Para reforçar a imagem de vítima da moça, mostraram a foto dela que Elisa já havia visto no twitter.

 

– Quem será a morena misteriosa que é capaz de colocar um sorriso no rosto da nova estrela do Pop?

 

Elisa ligou rapidamente para Alex, mas o celular dele só dava caixa postal. Ele devia estar no avião para Salvador.

 

– Ao que parece, ela não é famosa. Mas é bem esperta! – o programa continuava.

– Mas são um bando de filhos da puta mesmo. – Elisa falou com a TV como se os apresentadores pudesse ouvi-la.

 

Assistiu o programa até o final para ver se eles dariam mais alguma informação relevante, mas aparentemente ninguém sabia quem era a mulher da foto. Mas aquilo era só uma questão de tempo. Alguém ia perceber algum outro detalhe mais cedo ou mais tarde que levaria a ela. Ela quase teve um ataque quando o celular tocou.

 

– Já está com saudades de mim? – Alex soava feliz ao telefone.

– Estamos em todo lugar.

– Oi?

– Tiraram uma foto nossa hoje mais cedo. Eu não apareço, mas dá pra ver meu prédio.

– Entendi. Como posso te ajudar?

– Eu queria sumir, só.

 

Alex ficou em silêncio por um tempo.

 

– Vem pra cá. – ele finalmente disse.

– Não Alex, eu não posso.

– Pode sim. Vou pedir pra comprar uma passagem pra você pro primeiro horário disponível. Você some por uns dias e fica aqui comigo.

– Tá bom.

 

Alex ficou em silêncio novamente. Ela imaginou que foi porque ele não esperava que ela concordasse. E para ser honesta, ela também não sabia o que estava fazendo.

16

Acordou assustada com o grito. Sentou na cama e tentou descobrir onde estava. Havia um pouco de luz entrando pela janela. Alex não estava ali, mas ela sabia que não tinha sonhado. A sensação entre as pernas era muito vívida para ter sido um sonho.

 

Pegou o vestido do chão e correu em direção à cozinha, de onde o grito parecia ter vindo. A cena que encontrou foi no mínimo embaraçosa. Muriel estava agarrada a Alex e ele estava paralisado.

 

– Estou interrompendo alguma coisa? – Elisa tentou parecer séria mas queria rir.

 

Muriel se deu conta de que não estava mais a sós e soltou Alex.

 

– Oi moço, tudo bem? Meu nome é Muriel, eu moro aqui com a Elisa. – e como ele não disse nada, Muriel continuou falando. – Posso te oferecer alguma coisa? Um café, um banho, meu corpo?

– Acho que tá bom já, Mu. – Elisa interrompeu.

– Prazer, Muriel. – Alex deu um sorriso. – Meu nome é Alexandre, mas pode me chamar de Alex. – Ele sorriu e naquele momento Elisa teve certeza de que Muriel pularia no pescoço dele se ela não estivesse ali.

– Olha, eu vou pro meu quarto, ok? Se precisar de alguma coisa…

– Depois a gente se fala, tá? – Elisa interrompeu novamente.

 

Muriel deu uma piscadinha e saiu em direção ao quarto.

 

– Meus parabéns, você arrumou mais uma fã.

 

O sorriso morreu no rosto de Alex. Não sabia dizer o que ele estava sentindo depois da discussão de ontem. Sexo feito com raiva pode ser muito bom, mas não é tão bom assim quando você precisa lidar com a pessoa no dia seguinte.

 

– Você devia ligar pra sua mãe, ela ficou muito chateada ontem.

– Por quê?

 

Elisa se aproximou da pia e mecanicamente encheu uma caneca com água para preparar o café.

 

– Saudades. Quanto tempo faz que você não vê ela?

– Não sei. – a resposta dele parecia honesta. – Eu deveria estar em Salvador hoje.

– Caramba. – Elisa pegou o pó de café e a garrafa térmica. – Não me importa. Ligue pra sua mãe.

 

Alex parou na frente de Elisa, obrigando-a a encará-lo.

 

– Você quer mesmo continuar ignorando o que aconteceu?

– Eu me recuso a ter essa conversa sem beber uma xícara de café antes. – Elisa respondeu de forma firme.

 

Ele saiu da frente dela e sentou-se na pequena mesa – uma das poucas coisas que cabiam na diminuta cozinha. Elisa passou o café e pegou duas canecas.

 

– Vamos pro meu quarto.

 

Ela fechou a porta e Alex sentou na cama desfeita, caneca de café na mão.

 

– Então você está namorando? – Ela finalmente falou.

– Por que, está com ciúmes?

 

Elisa controlou a vontade de esmurrar Alex. Ele tinha o dom de tirá-la do sério desde que eram pequenos. Ele sempre provocava e parecia fazer questão de deixá-la desconfortável em todas as situações possíveis.

 

– Estou surpresa. – Elisa disse, controlando a raiva. – Ela é linda, parabéns.

– Ela não é minha namorada.

– E então? O que foi aquilo? – ela estava consciente de que sua voz havia subido pelo menos uma oitava.

– Não foi nada.

– Nada? Vocês assumiram namoro em rede nacional com alguns milhões de pessoas assistindo. Se aquilo não foi nada não quero nem imaginar quando…

– Não é justo isso que você está fazendo, Elisa. – ele interrompeu.

– Eu nunca te disse que era uma pessoa legal. – ela bebeu um gole grande do café, queimando a língua no processo.

– Olha, eu fiquei com ela ok? Alguém do programa descobriu e achou que era uma boa ideia fazer aquele circo. Boa audiência, publicidade pra mim e pra ela.

– Não acredito que você se prestou a esse papel.

– Eu não estava sabendo de nada. E não deveria estar me defendendo.

 

Elisa sentiu um gosto amargo na boca pela cena que estava armando. Não tinha direito nenhum de cobrar Alex, isso ela sabia bem.

 

– Me desculpa. Eu não tenho nada a ver com a sua vida. É a sua vida.

– Vocês já marcaram a data? – Alex ficou sério novamente.

– Não.

 

Alex suspirou e Elisa perdeu o foco por um momento, observando o movimento do peito dele.

 

– Você está me encarando.

 

Elisa ficou vermelha e virou o rosto.

 

– Pelo menos na minha casa você deveria andar completamente vestido.

– Vou me lembrar disso. E de evitar a sua amiga. – ele deu uma batida na cama ao lado dele. – Vem cá.

 

Elisa largou a caneca em cima da cômoda e sentou na cama ao lado dele.

 

Alex acariciou o pescoço de Elisa e deu um beijo próximo a orelha dela. Ela sentiu o calor da boca dele e fechou os olhos, distraída pela sensação.

 

– Me pede pra ficar. – as palavras dele foram ditas contra sua pele.

– Hmmm…

 

Elisa não conseguiu responder, deixando a boca e as mãos dele percorrerem os caminhos de seu corpo.

 

– Você quer que eu fique? – ele perguntou novamente.

– Eu quero…

– Mas…? – ele interrompeu o que estava fazendo para ouvir a resposta dela.

 

Elisa pareceu despertar e encarou Alex.

 

– O que você quer que eu diga, Alex? – era uma pergunta incômoda.

– Quero que você diga que quer ficar comigo.

 

Elisa ficou em silêncio.

 

– O que eu sou pra você, Elisa? – ele continuou.

 

Novamente ela não disse nada.

 

– OK então.

 

Alex se levantou e procurou a camisa, que estava amassada ao pé da cama.

 

– Não faz isso comigo.

 

Alex terminou de se vestir e não disse nada.

 

– Alex…

– Abre a porta pra mim, por favor?

 

Ela não podia pedir nada para ele. Não quando não pretendia oferecer nada em troca. O seguiu até a entrada do prédio, braços cruzados e expressão chateada.

 

– Elisa, você está me matando. – ele finalmente falou.

 

Ela tentou escolher as próximas palavras cuidadosamente.

 

– Eu gosto muito de você, Alex. – Elisa segurou o rosto dele entre suas mãos.

– Quanto você gosta de mim?

 

Como responder? Se ela dissesse qualquer coisa agora certamente ia falar besteira.

 

Escolheu o caminho mais fácil e beijou Alex. Era mais fácil do que dizer “Fica comigo pra sempre” ou “Eu te amo”. Ela já não sabia dizer o que sentia ou quem queria. Estava sendo puramente egoísta. Alex estava tão receptivo.

 

Ele interrompeu o beijo e a abraçou com força. De novo ela quis pedir que ele ficasse. Mas tudo o que conseguiu dizer foi.

 

– Você deve ter um avião pra pegar.

– Na verdade estou morrendo de medo de pegar meu celular. – ele brincou.

– Liga pra Vi.

– Eu vou.

 

Eles se separaram e Alex foi embora. Quem sabe até quando.

15

Era quase meia noite quando Elisa chegou no apartamento. Ficou o máximo de tempo que pode com Viviane, ainda sentindo-se culpada de ter que ir embora porque teria aula no dia seguinte. Antes de abrir a porta, automaticamente pegou o celular e verificou o twitter. #NAMORACOMIGOALEX ainda era o assunto mais comentado no Brasil. Ela riu e procurou a chave no fundo da bolsa.

 

– Boa noite, Elisa.

 

Ela congelou ainda com a mão dentro da bolsa. Alex estava encostado na parede atrás dela. Seu primeiro pensamento foi jogar a bolsa no recém chegado, mas ele não se mexeu.

 

– Vai me convidar pra entrar?

– Você nem trocou de roupa?

 

Ele riu, deliciado.

 

– Então você estava assistindo? – ele se aproximou e se apoiou próximo a porta enquanto ela lutava para abrir a fechadura.

– É como ver uma girafa fora de um zoológico. – ela abriu a porta e ele a seguiu.

– Por que? Porque pareço um animal selvagem? – ele entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si.

– Porque é estranho.

 

Elisa cruzou os braços e deu uma boa olhada em Alex. Ele definitivamente parecia cansado e tinha olheiras. Talvez tivesse perdido alguns quilos. Mas era o mesmo Alex que era conhecia, sem medo algum e cheio de audácia.

 

– A fama não está te fazendo bem. Você está horrível.

 

Ele levou a mão ao peito, como que ofendido.

 

– Nossa, tanto tempo sem me ver e é assim que você me recebe?

 

Alex não esperou uma resposta e invadiu o espaço pessoal de Elisa, que mantinha a postura fechada.

 

– Você não devia estar aqui.

– Mesmo? E onde eu devia estar? – ele desafiou.

– E a namorada, vai bem? – ela disse com raiva.

– Ela está ótima. E o meu irmão? Tudo bem com ele? – Alex respondeu no mesmo tom.

Elisa mordeu os lábios e ficou quieta. Quando Alex a beijou, estava cheio de raiva e ela também. Mordeu os lábios dele e ele revidou com mordidas no pescoço dela. O vestido dela pareceu desaparecer nas mãos dele e o mesmo aconteceu com a calça e a camisa que ele estava usando. Foi Elisa quem o arrastou para o quarto.

 

Ela o empurrou para a cama e tirou a meia calça e a calcinha que ainda usava. Ao mesmo tempo que estava desesperada pelo toque dele, queria puni-lo, queria fazer com que ele sofresse. Ela se posicionou sobre ele e não deixou que ele a penetrasse, controlando os movimentos dele. Se curvou para receber o beijo dele, ainda violento e cheio de raiva. Ele enterrou as mãos no cabelos dela, puxando-a para o mais próximo que conseguiu.

 

– Senta. – ordenou ele. – Senta no meu pau.

 

Elisa não obedeceu. Ela encarou a expressão faminta de Alex.

 

– É isso que você quer? – ela desafiou.

 

Ele ficou em silêncio, sério. Só então ela se posicionou e deixou que ele a penetrasse no seu ritmo. Devagar. Alex fechou os olhos e jogou a cabeça pra trás. Elisa enlaçou os braços no pescoço dele e deixou que seu corpo ditasse o ritmo. Ela não queria se apressar mas com Alex por perto era muito fácil perder o controle e deixar a sede tomar conta dela. Ela também fechou os olhos e esqueceu quem era naquele momento. Só havia Alex e a vontade de sentir ele dentro dela o tempo todo. Só havia aquela sensação e o toque dos lábios dele nos mamilos expostos dela. Só havia aquele momento e as mãos dele que a seguravam com a firmeza de quem nunca ia soltar.

 

– Eu não quero parar nunca, nunca, nunca…

 

Não soube dizer se era ele que estava falando ou se aquela era a voz dela. Ela não queria parar. Mas a onda de choque do orgasmo varreu seu corpo e ela soltou um gemido alto. Sentiu que ia cair, mas as mãos de Alex estavam ali. Só havia as mãos e os lábios dele.

 

A mente de Elisa era um completo branco. O corpo estava dormente e ela estava começando a sentir frio.

 

– Preciso deitar.

 

Alex ajudou Elisa a se levantar e tirou o edredom de cima da cama, se acomodando junto com ela. Ela estava exausta da viagem dupla, do dia, de Alex. Adormeceu profundamente, encolhida junto ao corpo dele.

14

O domingo amanheceu frio e chuvoso. Elisa abriu a janela do quarto e quase correu de volta para a cama. Mas a possibilidade de passar um domingo sozinha em casa à mercê da programação dominical a fez mudar de ideia rapidamente. Tomou um banho rápido e parou em frente ao armário como se escolhesse roupa para um encontro. Não queria encontrar Alex, mas e se? E se ele estivesse lá? E se ele aparecesse?

 

Sentiu vontade de se estapear e pegou a primeira roupa que viu, um vestido simples. Completou a produção com meia calça, sapatilhas e a bolsa de sempre.

 

O supermercado estava vazio e ela achou tudo que precisava rapidamente. Quando estava passando as compras no caixa, escutou a voz conhecida vinda dos alto-falantes do supermercado. Estavam tocando “Pássaro de fogo”. Suspirou resignada enquanto esperava a caixa terminar o serviço. Quando entrou no carro, colocou a mesma música para tocar e assim foi durante todo o caminho até a chácara.

 

________________

 

Quando ela chegou, Vivi já estava na cozinha com uma garrafa de vinho aberta e música alta tocando. Pelo menos era música italiana. Elisa sorriu e colocou as compras em cima da mesa, cumprimentando Viviane em seguida.

 

– Tudo bem, Vi?

– Elisa! Vou servir uma taça pra você, peraí!

 

Ela ainda tentou protestar, mas Viviane foi mais rápida. Entregou a taça para Elisa.

 

– À nós!

– À nós! Saúde!

 

As duas se revezaram entre as tarefas de fazer o molho e preparar a massa do macarrão. Estavam cozinhando para apenas duas pessoas, mas Elisa tinha certeza de que aquela quantidade de comida era suficiente para um belo banquete. Almoçaram e se acomodaram na sala para descansar.

Elisa estava cochilando quando Viviane a cutucou.

 

– Acorda, o Alex tá na TV! – a voz de Viviane era alta e cheia de excitação.

 

Ela sentou no sofá e precisou de alguns minutos para se localizar. A TV. Alex. Sentiu como se tivesse tomado uma martelada na cabeça.

 

– Ahhhhhhhhhh sim! Sim, sim!

 

A música que vinha da TV era Not mine, a primeira música dele a fazer sucesso. Conforme previsão de Elisa, uma marca de roupas femininas usou a música em uma de suas propagandas e Alex estourou. A câmera filmava o apresentador e a plateia cantando, mas Elisa queria que a câmera focasse apenas em Alex, que cantava e tocava piano ao vivo.

 

Ele parecia o mesmo, mais cansado e de cabelo mais comprido. A voz dele era igual.

 

“Acho que já chega, não? Já basta eu de errado.”

 

Ela conseguia escutar as últimas palavras que ouviu dele, meses atrás. Na TV, a execução da música acabava e o apresentador apontava o microfone para Alex. A sequência de perguntas genéricas foi quebrada por perguntas que não queria ouvir ele responder.

 

– E então, de onde vem a inspiração para escrever essas músicas?

 

Elisa congelou. Será que ele ia revelar alguma coisa ali, num programa de domingo? Alex parou por um momento, considerando o que diria a seguir. Ele olhou diretamente para a câmera e Elisa sentiu que ele estava olhando diretamente para ela.

 

– Eu me inspiro muito nos meus amigos e na experiência deles. Nunca namorei até hoje.

 

O apresentador soltou um bordão e o auditório veio abaixo com a revelação. Quando todo mundo se acalmou, o apresentador chamou uma gravação dizendo que tinha uma mensagem de uma pessoa muito especial para ele. Na gravação, uma moça bonita de cabelos longos e boca carnuda se declarava para Alex, dizendo que estava muito feliz de estar ao lado dele e desejava passar muitos anos ainda com ele.

 

A moça interpretava a mocinha da novela das 9. Então eles estavam assumindo um relacionamento ao vivo para o Brasil inteiro? Viviane deu um grito ao seu lado.

 

– COMO É QUE É? Eu vou ligar para ele já. Como que ele começa a namorar e nem conta pra mim?? EU SOU A MÃE DELE!

 

O apresentador continuou soltando um série de bordões, reafirmando que o amor era lindo e desejando felicidades ao casal. A expressão de Alex era indecifrável. O apresentador chamou os comerciais e não deu oportunidade para Alex falar de novo. Quem sabe o que ele diria.

 

Viviane ligava furiosamente para o celular de Alex.

 

– Eles estão ao vivo, Vi. Acho que ele só vai ver mais tarde.

– Ele vai me ouvir e vai me ouvir bastante. Tanta atriz para namorar e ele me namora logo uma atriz ruim!

– Calma Vi, não é assim que amor funciona!

– Olha eu não faço ideia de como o amor funciona, mas tenho certeza que não é assim.

 

Discou mais uma vez e deixou um recado na caixa postal de Alex.

 

– Alexandre, o senhor faça o favor de ligar pra mim AGORA. Que história é essa? Você conta pra todo mundo menos pra sua família? Acho bom me ligar assim que o programa acabar!

 

Viviane desligou o telefone, a cara fechada.

 

– Tá tudo bem, Vi? – Elisa perguntou de forma cautelosa.

– Tá sim. – ela caiu do sofá ao lado de Elisa.

 

Viviane começou a chorar.

 

– É só que… Eu não vejo ele mais e fico sabendo das coisas assim agora. Estou com saudades dele.

 

Elisa abraçou Viviane, esperando ela se acalmar.

 

– Olha, voltou. – Elisa apontou para a TV, que mostrava a vinheta do programa.

 

A câmera focou diretamente em Alex dessa vez. Ele começou a cantar Pássaro de Fogo e a plateia acompanhou cada palavra dele. No entanto ele parecia outra pessoa, como se tivesse sido substituído no intervalo. A expressão dele era irônica e ele interpretava a música com um tom diferente do que Elisa estava acostumada a escutar. Era puro deboche

 

Alex encerrou sua participação no programa fazendo uma reverência exagerada e soprando um beijo para a plateia, que respondeu de acordo. Mais um pouco e os seguranças não iam conseguir segurar os presentes. Ah, ele sabia deixar o público doido.

 

Viviane estava mais calma, mas ainda estava chateada. Elisa foi na cozinha, pegou uma barra de chocolate e dividiu com a futura sogra.

 

– Vamos comer né, Vi.

– Fazer o quê. – Viviane deu um meio sorriso e pegou um pedaço do chocolate que Elisa oferecia.

13

A TV do salão estava ligada e a propaganda anunciava a coletânea de músicas da última novela das 9. Elisa não prestaria atenção normalmente, mas a primeira música anunciada – aquela que embalava o casalzinho – era Pássaro de fogo, uma música de Alex. A melodia tocava toda vez que o casal ficava junto ou se separava, quando um pensava no outro e às vezes no encerramento da novela. A música era onipresente, assim como Alex. Ela já não iria conseguir esquecer tão facilmente, agora com aquela música tocando em todo lugar é que ela não teria paz.

 

Pássaro de fogo

Se deixar eu me afogo

Nas mentiras do teu jogo

 

– Eu amo essa música! – uma das frequentadoras do salão comentou, entusiasmada.

 

Pássaro de fogo

Há estrelas em seus olhos

E promessas que eu não ouço

 

Metade do salão improvisou um coral, repetindo os versos conhecidos até mesmo depois da propaganda ter terminado. Elisa quis gritar pra que todas elas calassem a boca. Vasculhou o revisteiro e achou uma revista de fofocas de duas semanas atrás e decidiu que se distrairia com aquilo. Meia dúzia de páginas folheadas depois, deu de cara com Alex novamente. A matéria estampava o flagra do músico saindo da casa de um provável amante nas primeiras horas da manhã.

 

“Música de madrugada

 

Alex D. foi visto nessa manhã deixando a casa que pertence ao notável dono de casas noturnas Fernando L.. Ainda não sabemos se estava ensaiando uma música nova ou se praticava qualquer outra atividade.”

 

A matéria era típica de revistas baratas e sensacionalistas, e contava com uma foto granulada tirada de longe. Sim, ainda era possível identificar a figura longilínea de Alex. Elisa arrancou a página da foto e guardou na bolsa, sem pensar muito no que estava fazendo.

 

– Eu te entendo, eu também adoro ele. – uma moça a seu lado a viu rasgando a revista e interpretou aquilo como sendo pura admiração de fã.

– Ele é incrível, né? – Elisa se forçou a dizer.

– Demais, pena que ele é gay.

 

Outras moças se intrometeram na conversa ao se darem conta do assunto.

 

– Jura? Não tem quem diga. – comentou uma que estava com pés e mãos dentro de uma bacia.

– Sério, ele está sempre andando com esse cara. Esse aí da revista. – respondeu a primeira moça.

– Não acho não. Eu li que ele tava saindo com aquela atriz da novela das nove.

– Qual, a mocinha?

– Essa.

– Nossa, eu se pudesse faria de tudo com ele. – comentou a manicure.

– Eu também… A voz dele nossa, me deixa toda arrepiada! – concordou uma moça cheia de papel alumínio na cabeça.

– Ele é incrível. – repetiu Elisa no automático.
Ela deixou a conversa morrer. Ter que aguardar sua vez estava ficando insuportável.

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O celular tocou quando estava chegando em casa. Ela fuçou a bolsa e localizou o aparelho no fundo.

 

– Alô?

– Elisa, minha linda! Não vai vir aqui pra chácara esse fim de semana?

– Oi Vi, tudo bem? Acho que não dá, prometi que ia ajudar a Muriel faxinar o apartamento.

– Hmm. Você sabe que pode morar comigo no apartamento né? É mais perto da faculdade e você não pagaria aluguel.

– Eu sei Vi, e eu te agradeço muito! Mas até me formar prometi que ficaria com a Mu. Obrigada mesmo.

– Sem problemas, se precisar sabe que a casa é sua.

– Claro Vi. Beijo!

– Beijo!

 

Elisa guardou o celular na bolsa e encarou Muriel, que estava encostada em uma parede olhando fixamente pra ela.

 

– Muito bonito a senhora me usando de desculpa de novo! – Muriel riu e Elisa ficou sem graça. – Olha, se quiser fugir por enquanto tudo bem, mas vai precisar encarar sua família mais cedo ou mais tarde.

– Obrigada Mu, to te devendo essa. – Elisa abaixou a cabeça como quem fazia uma reverência.

– Você está me devendo várias. Aceito como pagamento que você me apresente a delícia do seu cunhado.

– Claro, qualquer dia eu te apresento. Acho que agora ele deve estar ocupado demais.

 

Muriel passou a mão pela cabeleira cacheada e jogou os cabelos pra trás.

 

– Eu não vou esquecer disso. E aí, planos para o sábado?

– Pedir pizza, assistir a novela…

– Mas essa novela é horrível! Aposto que você só assiste porque tem música do seu cunhado.

 

Elisa riu. Só podia ser por esse motivo mesmo.

– E teu noivo, cadê?

– Trabalhando… Ele fechou com três fazendas e vai passar o final de semana inteiro fora.

Muriel deu um assobio comprido.

– Pode me acompanhar se não tiver nada melhor pra fazer. – Elisa continuou.

– Lógico que eu tenho. Marquei de sair com aquele cara do segundo ano.

– Aquele do laboratório ou o bonitinho que tem os dentes separados?

– O do laboratório. O bonitinho eu saí na semana passada.

– Ah tá, desculpa aí!

 

Muriel riu e deu um tapa na bunda de Elisa. Ambas entraram juntas na faculdade de medicina e eram amigas desde o dia do trote. Além do apartamento, Elisa dividia quase todos os segredos com Muriel. Quase todos. Elisa apreciava o quanto Muriel era cheia de vida e o quanto ela respeitava seu espaço.

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Ela já estava acomodada no sofá acompanhada da caixa de pizza quando uma Muriel muito perfumada e maquiada desfilou em direção a porta.

 

– Como estou?

– Eu pegaria. – Elisa respondeu de boca cheia.

– Eu já sabia. – Muriel riu e abriu a porta. – Não me espera acordada! – Ela fechou a porta.

 

Elisa não se deu ao trabalho de responder, até mesmo porque não sabia se Muriel a ouviria. Voltou sua atenção para a novela, que parecia ter chegado a um ponto crítico. A mocinha pegou o mocinho no flagra com outra, numa dessas situações que só acontecem em novelas ou em música sertaneja. O mocinho tentava explicar que não era bem aquilo que estava acontecendo, mas a mocinha – uma mulher forte, batalhadora e decidida – não aceitava as explicações.

 

E então eles se separaram mais uma vez. Algo que até o final da novela ocorreria umas cinco ou seis vezes, dependendo da paciência do telespectador. Tentou imaginar o que ela seria capaz de fazer se pegasse Roberto com outra, mas só conseguiu pensar que a mulher teria de agarrá-lo à força. O pensamento a entristeceu.

 

Sua mente se enveredou por um caminho mais escuro e ela se pegou imaginando o que faria se visse Alex beijando outra pessoa. Não que já não tivesse visto ele fazendo coisa pior, mas na época era diferente. Era diferente. A música que vinha da televisão era Pássaro de fogo. Não sabia dizer quando ouviu a música pela primeira vez, mas mesmo depois de meses e mesmo depois de conhecer cada palavra e acorde, ela sentia a mesma coisa toda vez que ouvia.

 

Pássaro de fogo era uma música dolorida. Era um rompimento que não acabou bem para nenhuma das partes. Era uma promessa que nunca seria cumprida. Falava sobre um monte de coisas que deveriam ser ditas mas que nunca seriam. E de silêncio.

 

A TV anunciava agora o programa dominical, cuja atração era Alex. Elisa se viu grudada na TV. Então agora ela estava cogitando até assistir programa de auditório durante o domingo só pra ver Alex ao vivo. Puxou a TV da tomada e decidiu que era hora de acabar com aquilo. Ia arrumar alguma coisa para fazer. Resgatou o celular do sofá e mandou mensagem para Vivi.

 

“Vamos almoçar domingo?”

“VAMOS SIM! 🙂 🙂 :)”

 

Viviane não demorou nem um minuto para responder. Será que também estava assistindo a novela? Combinou de fazer compras e depois seguir para a chácara. Pelo menos Alex não estaria lá.